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Batuque bem temperado
[14 X 21 cm]
R$30,00

Autores: Flávio José Cardozo, Jair Francisco Hamms.

ISBN: 978-85-7474-481-0

176 páginas

Entrem nesta roda Cronistas em dueto. Uma boa ideia e uma feliz combinação. Se os cronistas em contraponto forem Flávio José Cardozo e Jair Francisco Hamms, que soem as trombetas, pois aí vem coisa boa, de primeira. Recomendo ao leitor que mergulhe logo na leitura das crônicas de um e outro. No terreiro deste Batuque bem temperado, a roda não se abre para os atabaques e as umbigadas, mas para que dois dos melhores escritores catarinenses do nosso tempo mostrem-nos como se dança o “minueto no meio de uma batalha”, conhecida metáfora usada por Machado de Assis, certa feita, para definir a crônica. Flávio e Jair são mestres consumados nesta escrita ligeira e esperta, que parece um bate-papo amistoso no balcão do cafezinho. Eles nos oferecem uma estimulante dose dupla de talento e criatividade nas quarenta crônicas aqui reunidas – vinte de um, vinte de outro. A crônica busca os seus temas preferenciais no cotidiano, nos pequenos dramas e comédias da vida real. Há que ter sensibilidade maiúscula e olhar arguto para identificá-los e catá-los no chão do dia a dia. Mas não é só. Sob o disfarce de conversa descontraída e sob a aparente simplicidade do gênero, esconde-se a sua maior dificuldade. Ser simples é muito complicado, como sabeis. Os bons cronistas são aqueles que conseguem conferir aos seus temas um significado maior como representação do humano e da nossa história comum, sem perder o jeitinho de quem nada quer além de divertir o leitor e fazer-lhe alguns afagos. Entendo, também, que os melhores cultores do gênero são aqueles que conseguem traduzir a voz e a sabedoria do povo nas ruas, nos chamam a atenção para o que não vemos, e expressam, com eloquência e leveza, com humor e compaixão, em delicada alquimia, tanto a nossa indignação quanto a nossa esperança. Flávio e Jair. Jair e Flávio. Deste dueto de virtuoses, emerge a crônica com os saborosos temperos e os perfumes da terra amada. Quem entrar neste batuque em tão boa companhia dele sairá gratificado e de alma lavada, pois terá convivido com dois escritores de proa que se inserem na melhor tradição da crônica brasileira. Eis textos de impecável talhe, que fluem como a água límpida de um regato a correr sobre leito de seixos. Eles nos proporcionam momentos de refrigério e de encantamento. A grande arte da narrativa transparece em cada uma dessas quarenta crônicas. Entrem na roda para conferir. Mergulhem no “Poço da noite” com o Flávio, façam uma “Viagem a lugares comuns” na companhia do Jair, e, com eles, dancem jubilosos na roda do Batuque bem temperado. Mário Pereira

Flávio José Cardozo nasceu em Lauro Müller, SC, em 1938. Frequentou o Curso de Jornalismo da PUC-RS. Trabalhou na Editora Globo de Porto Alegre, foi diretor da Imprensa Oficial de Santa Catarina e da Fundação Catarinense de Cultura. É membro da Academia Catarinense de Letras. Escreveu os livros de contos Singradura, Zélica e outros e Guatá. Como cronista publicou Água do pote, Beco da lamparina, Tiroteio depois do filme, Senhora do meu Desterro, Trololó para flauta e cavaquinho (com Silveira de Souza), Uns papéis que voam, Duas violas arteiras (com Sérgio da Costa Ramos) e Sopé (com o desenhista Tércio da Gama). Na área da literatura infanto-juvenil, publicou O tesouro da Serra do Bem-bem. *

Jair Francisco Hamms nasceu em Florianópolis, SC, em 1935. Formado em Direito, atuou na publicidade, no jornalismo e no magistério superior. Na Universidade Federal de Santa Catarina, exerceu diversas funções administrativas, entre elas a de Chefe de Gabinete do Reitor e de Diretor de Intercâmbio e Extensão Cultural. Pertence à Academia Catarinense de Letras. É autor dos livros Estórias de gente e outras estórias, O vendedor de maravilhas, O detetive de Florianópolis, A cabra azul e Samba no céu, todos de crônicas. Publicou também o ensaio Santa Catarina, um caleidoscópio étnico. Sua crônica “A Sobrinha da Senhora Dodsworth” deu origem ao premiado curta-metragem Alumbramentos, de Laine Milan.

Às três e trinta, com apenas hora e meia de atraso, ela chegou. Não era bem como eu a havia imaginado, gordinha e nos seus vinte e dois anos, nem como a imaginou minha mulher, ossuda e com pelo menos cinquenta. Desde que o Jair, sabedor de nossas pretensões, me disse que tinha falado com uma tal de Leocádia e que ela estaria conosco amanhã às duas em ponto para trocar idéias sobre o assunto, ficamos a desenhá-la mentalmente. Minha mulher chegou a vê-la em sonho, vestida de verde e com uma estrela na cabeça. Eu, mais moderado, apenas esperei, confiando que o bom Deus nos dava enfim uma grande oportunidade. E ali estava ela: Dona Leocádia, nem gorda nem magra, quarentas anos prováveis, vinte vezes mais feia que bonita, mas nada disso interessava, pois mesmo que estivéssemos diante da suprema feiúra do universo nós a faríamos entrar festivamente. - O Dr. Jair pediu que eu viesse aqui. - O Jair é um santo amigo, poxa.

(Flávio José Cardozo, na crônica “Entrevista com a mulher que o Jair mandou”)

* Sabes, Flávio, naquele tempo, a gente dizia assim: quando eu for grande, quero ser tal coisa. Variava muito: aviador, bombeiro, médico, sargento da polícia, barbeiro, advogado, chofer de ônibus, professor, sapateiro. Por exemplo: o Chico sonhava ser goleiro do Figueirense; o Dagmar, que era canhoto, queria ser ponta-esquerda do Avaí. Já o Joca, muito esganado, queria ser o dono da Padaria Brasil só para que, dia e noite, enchesse o pandulho de doce, empada, cocada. Era época da guerra. Bombardeios na Inglaterra, bombardeios na Itália, bombardeios na Alemanha. Chovia bombas na Europa. Havia uma revista, chamada Em Guarda − lembras, não é? − que estampava fotos de simpáticos e sorridentes aviadores ianques, vestindo roupas de couro, toucas de couro e com óculos reluzentes. O Xandoca queria ser aviador, Flávio.

(Jair Francisco Hamms, na crônica “Um bombardeiro azul”)

Este produto foi adicionado em nosso catálogo em terça 01 dezembro, 2009.
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